O capítulo
7 da Carta aos Romanos trata da relação dos cristãos com a Lei de Deus,
especificamente como a Lei se relaciona com o pecado e a liberdade em Cristo. O
apóstolo Paulo fala sobre como, embora a Lei seja boa, ela não tem o poder de
salvar e, na verdade, revela a natureza do pecado humano, mostrando como o ser
humano é incapaz de cumprir a vontade de Deus por conta própria.
Aqui está
uma explicação mais detalhada do capítulo:
1. A Lei e a Morte (Romanos 7:1-6)
Paulo
começa explicando que a Lei tem poder sobre uma pessoa enquanto ela está viva.
Ele usa a analogia do casamento: enquanto o marido e a esposa estão vivos, o
vínculo entre eles é válido. No entanto, quando um dos dois morre, o vínculo é
desfeito. Assim, a morte de Cristo nos liberta da "Lei", pois
morremos com Ele na cruz. Como resultado, os cristãos, agora
"morrendo" para a Lei através de Cristo, podem viver para Deus e
produzir frutos para Ele.
Teólogo: John Stott
John Stott, em seu comentário sobre Romanos, enfatiza que Paulo usa a analogia do casamento para
ilustrar a liberdade que o cristão recebe por meio de Cristo. Ele observa que a
"morte" mencionada no versículo 4 não é apenas uma referência ao
sofrimento de Cristo, mas também à identificação do crente com Cristo na sua
morte. Em outras palavras, através da morte de Cristo, o crente é libertado da
condenação da Lei e, portanto, pode viver para Deus.
"A morte de Cristo, portanto, não é apenas
uma morte substitutiva por nós, mas também uma morte representativa, na qual,
por sua graça, estamos unidos a Ele." – John Stott, A Carta de
Paulo aos Romanos (Comentário Bíblico)
2. O Propósito da Lei (Romanos 7:7-12)
Paulo
reconhece que a Lei não é pecado, mas sim algo bom, pois foi dada por Deus para
revelar o que é pecado. No entanto, a Lei também revela a natureza do pecado
humano. Por exemplo, ele usa o mandamento "não cobiçarás" para
mostrar que a lei revela desejos proibidos no coração humano, e assim, a Lei
acaba evidenciando a nossa incapacidade de viver de acordo com a vontade de
Deus. Portanto, a Lei é santa e boa, mas o problema está na nossa natureza
pecaminosa, que é despertada pela Lei.
Teólogo: Martyn Lloyd-Jones
Martyn Lloyd-Jones, em seus sermões sobre Romanos, observa que a Lei não é má, mas que sua função é
revelar o pecado e acentuar a nossa incapacidade de viver em perfeita
obediência a Deus. Ele afirma que, sem a Lei, nunca perceberíamos a gravidade
do pecado e a profundidade da nossa necessidade de redenção.
"O papel da Lei é o de nos mostrar o
pecado, não para nos salvar, mas para nos conduzir a Cristo. A Lei não pode nos
salvar, mas ela pode nos levar a reconhecer nossa necessidade de um
Salvador." – Martyn Lloyd-Jones,
Romanos: A Justificação Pela Fé
Comentário
Bíblico: Comentário de William Hendriksen
William Hendriksen, em seu comentário, reforça que a Lei é boa porque reflete a vontade de Deus e serve para
nos mostrar nossa falha em alcançá-la. Ele explica que a Lei não tem o poder de
salvar, mas é uma "espelho"
que revela a nossa pecaminosidade.
"A Lei, de fato, é santa, justa e boa;
mas ela não pode salvar. Ela apenas nos expõe e nos ensina a natureza do pecado,
para que possamos reconhecer a necessidade de um Salvador." – William Hendriksen, Comentário Bíblico de Romanos
Ilustração: O Espelho e a Sujeira
A Lei pode ser comparada a um espelho que
reflete a nossa sujeira. Quando olhamos para um espelho sujo, vemos que o
problema não está no espelho, mas em nossa própria sujeira. A Lei, da mesma
forma, revela o pecado em nossa vida. Ela não tem o poder de limpar a sujeira,
mas mostra claramente onde está o problema, tornando a necessidade de um
Salvador evidente.
3. O Conflito Interno (Romanos 7:13-25)
Aqui,
Paulo fala sobre a luta interna que todo cristão enfrenta. Mesmo sabendo o que
é certo (de acordo com a Lei), ele continua a lutar contra a natureza
pecaminosa que o leva a fazer o mal. Ele descreve um conflito entre a mente
(que deseja fazer o bem) e a carne (que tende ao pecado). Isso gera uma
sensação de frustração, pois, por mais que ele queira viver corretamente, ele
se vê preso ao pecado.
Paulo
descreve sua experiência pessoal, dizendo que, por mais que sua mente e coração
queiram seguir a Lei de Deus, ele se vê fazendo o contrário, como se fosse um
prisioneiro do pecado. No final dessa reflexão, ele clama: "Miserável
homem que sou! Quem me livrará do corpo desta morte?" (Romanos 7:24). Essa
expressão reflete a luta constante contra o pecado.
Dietrich Bonhoeffer, no contexto da luta contra o pecado em Romanos 7, comenta que Paulo está
descrevendo não apenas a experiência do
pecador antes de Cristo, mas também a luta interna de todo cristão
que, apesar de ser regenerado, ainda enfrenta a presença do pecado na sua vida.
Bonhoeffer observa que a "vida
cristã" não é uma vida sem luta, mas uma vida que é marcada pela
tensão entre o desejo de obedecer a Deus e a realidade da carne que puxa o
crente para o pecado.
"A vida cristã é uma luta constante
contra o pecado, mas a vitória final já foi conquistada em Cristo. O cristão
não está sem esperança nesta luta; sua esperança está em Cristo, que já
venceu." – Dietrich Bonhoeffer,
A Vida Cristã
Comentário
Bíblico: Comentário de Douglas Moo
Douglas Moo, um dos mais respeitados estudiosos de Romanos, explica que em Romanos 7:14-25, Paulo fala de uma
experiência de conflito moral interno que reflete a luta do cristão contra a
natureza pecaminosa. Moo destaca que Paulo não está descrevendo uma condição
antes da conversão, mas uma experiência que pode ocorrer até mesmo após a
conversão, enquanto o crente ainda vive em um corpo mortal e sujeito à tentação.
"Paulo descreve, aqui, a condição de um
cristão que ainda luta com o pecado. O conflito entre o desejo da mente (de
fazer o bem) e a carne (que leva ao pecado) é uma característica da vida cristã
enquanto aguardamos a completa redenção." – Douglas Moo, Comentário
sobre Romanos
4. A Solução: A Graça em Cristo (Romanos 7:25)
A solução
para o conflito entre o desejo de fazer o bem e a realidade do pecado está em Jesus
Cristo. Paulo conclui o capítulo dizendo que, embora sua mente sirva à Lei
de Deus, sua carne serve ao pecado, mas em Cristo há libertação dessa
escravidão ao pecado. Por meio de Cristo, os cristãos são libertos e
capacitados a viver uma vida nova, em que, apesar da luta contra o pecado, há a
vitória da graça.
Teólogo: N. T. Wright
N. T. Wright explica que a libertação de Paulo em Romanos 7:25 é encontrada apenas em Cristo, que não só
nos dá o perdão, mas também nos oferece o poder para vencer o pecado. Ele
observa que, em Cristo, o cristão tem a real
liberdade para viver de acordo com a vontade de Deus, já que a graça
de Deus capacita o crente a viver em obediência.
"A vitória sobre o pecado e a morte não
ocorre por nossas próprias forças, mas pela graça de Deus, que nos é dada em
Cristo. A Lei revela o pecado, mas é Cristo quem nos dá a vitória sobre
ele." – N. T. Wright, Romanos: A Justificação e a Redenção
Resumo
O
capítulo 7 de Romanos é uma reflexão profunda sobre a relação entre a Lei e o
pecado. Ele expõe a incapacidade humana de cumprir a Lei de Deus por conta
própria e como a Lei, embora boa, apenas revela o pecado. A solução para essa
luta está em Cristo, que nos liberta da condenação do pecado e nos dá a
possibilidade de viver de acordo com a vontade de Deus. Esse capítulo prepara o
caminho para o que Paulo fala no capítulo 8, onde ele declara que, em Cristo,
há liberdade e vitória sobre o pecado e a morte.
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